A (I)MOBILIDADE DAS MULHERES NO COTIDIANO URBANO: Reinvenções pela precariedade do tempo, custo e segurança no Rio de Janeiro
Esta tese analisa a mobilidade urbana da Região Metropolitana do Rio de Janeiro a partir dos feminismos críticos e do conceito de mobilidade do cuidado, argumentando que a racionalidade tecnocrática, funcionalista e tecnossolucionista despolitiza o planejamento urbano e invisibiliza o trabalho reprodutivo que sustenta a vida cotidiana. Articulando revisão bibliográfica, análise documental e grupos focais com 32 mulheres moradoras das Zonas Norte, Oeste e da Baixada Fluminense, a pesquisa demonstra que tempo, custo e segurança são dispositivos de poder que estruturam regimes dominantes e subalternos de mobilidade. As evidências indicam que, sob discursos de escassez, a retração estatal abre espaço para a captura da circulação por plataformas digitais, que financeirizam necessidades cotidianas, privatizam riscos e naturalizam precariedades generificadas, racializadas e territorializadas. A desigualdade entre a Zona Sul e os territórios periferizados da cidade materializa-se em coberturas desiguais, baixa previsibilidade e custos regressivos, resultando em sobretrabalho temporal e emocional que mantém as mulheres como principais responsáveis pelo cuidado. Como agenda de transformação, a tese propõe quatro inversões: a centralidade da experiência situada das mulheres periferizadas; o reconhecimento de tempo, custo e segurança como organizadores estruturantes da mobilidade; a afirmação das mulheres como sujeitas epistêmicas; e o deslocamento da mobilidade individualizada para sua compreensão como comum urbano, politizando o cuidado como eixo da ação pública. Ao deslocar o foco da técnica para o cuidado, o trabalho oferece bases éticas, políticas, teórico-metodológicas e práticas para um planejamento feminista e transformador.




